Energia

Eram quase 08:30 da noite... Em meia hora, o espetáculo iria começar. Ao que meus ouvidos podiam escutar do lado de fora do teatro, havia uma quantidade considerável de pessoas esperando. Em quanto isso, fiquei repassando pelos espaços da casa pra verificar minhas responsabilidades. Não esqueci nada. Esta tudo nos seus devidos conformes. São 08:37 e eu não consigo parar de olhar as horas... Estou começando a ficar nervoso. Nunca tinha estrelado em um espetáculo de espaço alternativo. No meio tempo de montagem dos cenários da casa, fui vendo-a se transformar. O que era uma simples sala de reunião tornou-se um bar nordestino. O que era um porão agora é um espaço místico. Não paro de analisar cada espaço da casa... Bom, já são 8:50 faltam apenas 10 minutos para o espetáculo começar. O elenco todo está se reunindo no jardim para fazer nosso ritual de concentração. Sugeri uma troca de energia. Estamos em roda, mãos estendidas com e abertas, direita em cima, esquerda em baixo. Disse para cada um concentrar suas energias positivas naquele pequeno vão entre a mão esquerda e a direita, com a condição de mandar essa energia para algo que você goste muito. Todos fecham os olhos. Não conseguia imaginar ninguém para quem eu pude-se mandar minha energia. Quando parei para pensar nas minhas próprias instruções para o grupo, me veio uma única coisa em mente. Estava lá, ressoando pelos meus pensamentos. O silêncio se estabeleceu na roda e quebrando este silêncio, eu passei a última instrução do exercício de concentração: Dar as mãos e passar essa energia positiva pela roda. Todos abrem os olhos, se olham, abrem mais a roda, contam todos até três juntos e gritam “Merda” que no teatro quer dizer “Sorte”. Cada um vai para seu espaço cênico.
São 08:58, o espetáculo vai começar em menos de dois minutos! Estou sentindo um frio na barriga... Todos que estão nervosos, feito eu. Entoando um canto bem baixinho para Dionísio, Deus do teatro. É como se eu pudesse ouvir... “Oh Dionísio, sua presença sagrada, evoé, evoé! E-vo-é...” E repetia-se constantemente até que o diretor disse a nós: “São 09:00! Contém até dez e comecem! E só mais uma coisa: MERDA!” Assim que ele terminou, começamos a contagem... Abriram-se as portas e o espetáculo começou.  Em uma respiração profunda comecei a tocar meu violão fazendo barulho junto de meus companheiros de cena que estavam com outros instrumentos. Enquanto a cena está acontecendo, mantenho um foco em direção a lua que se encontra ao fundo do público. Tenho dificuldade de olhar para as pessoas com elas olhando pra mim, procurei isso como escapatória. Com o decorrer da cena começo a ficar mais calmo... Em alguns momentos desvio meu olhar e olho para o público para ver se encontro algum conhecido. Avistei alguns que já esperava ver. Na cena eu tinha que cantar junto aos outros. Estava meio inseguro quanto à afinação da minha voz. Mas o público parecia estar gostando... Talvez a voz dos outros estivesse cobrindo a minha, melhor assim. Senti-me mais seguro. A cena esta acabando. Os outros estão saindo, fico só eu e mais um colega em cena, sentados esperando que outro feche a porta da garagem para dar sequência ao espetáculo. Feito isso, levantei da cadeira em que eu estava sentado, me senti diferente. Estava com a sensação de que tinha visto uma pessoa não esperada. Fui trocar-me para a outra cena com isso na cabeça.

São mais ou menos 21:30. Estou prestes a entra na sexta cena do espetáculo. Estou esperando a minha deixa, assim que a escuto, entro. O público está espalhado pelo jardim... Escuto alguns pequenos risos depois das falas que eu e meu parceiro de cena demos. Depois disso, aconteceu-me algo que eu não esperava e que nunca havia me acontecido: Me desconcentrei por um segundo.  Um deslize quase perceptível. Escutei uma voz familiar meio ao público... Perdi o foco, mas logo que percebi, voltei para meu estado de atuação. Minha próxima marca era subir uma escada. Levanto calmamente, e vou até ela. Estou vendo agora o público do alto. Em alguns momentos dou uma espiada para ver se encontro um conhecido... Em um desses momentos, me desconcentro novamente! Começo há ficar um pouco nervoso comigo mesmo... Enquanto tento recuperar o fio da meada, decido parar de olhar pro público. Mesmo que a minha curiosidade diga o oposto. Percebi que não seria tão fácil. Mas uma vez tive aquela sensação de que tinha alguém diferente na plateia. Contenho-me e continuo a cena.
São 22:35, o espetáculo está quase terminando.  Agora, minha personagem já não é mais a mesma. Estou num lugar que posso ficar mais a vontade. Estou cansado. Foi uma noite muito puxada! Durante o espetáculo inteiro fiquei com aquela maldita sensação estranha... A cena agora é a de um baile, cena final do espetáculo. Estamos agora em um galpão no fundo do jardim da casa, nele, um palco italiano. A plateia está se acomodando nas arquibancadas. Entro em cena e coloco um forró. Estou esperando a deixa pra abaixar o som. Sou uma espécie de DJ nessa cena.
São 22:45, está rolando uma música no último volume, o espetáculo está acabando, a luz está abaixando, percebo a deixa para abaixar o som, abaixo o som bruscamente estabelecendo segundos de silêncio na cena. De repente, aplausos firmes, gritos e assobios. O espetáculo foi um sucesso. Todo o elenco se dirige a boca de cena do enorme palco que fica no jardim da casa. Estou muito feliz! Comprimento a plateia junto ao restante do elenco. O responsável pela peça faz os agradecimentos. Enquanto isso, mais uma vez tive aquela sensação. Que diabos estaria me causando isso? Feito os agradecimentos, mais aplausos. Posso ir cumprimentar meus amigos. Não imaginava, mas tinha mais pessoas que eu conhecia do que eu poderia imaginar. Para todos os lados pessoas me abraçando e me parabenizando. Mais uma vez tive aquela sensação, mas dessa vez estava diferente, estava mais forte... Escuto alguém me chamar e me viro para olhar, uma amiga me abraça logo em seguida. Quando olho atrás dela enquanto a abraço, avisto o motivo daquelas sensações estranhas, a causa de todo o meu nervosismo durante o espetáculo, ela estava ali prestes a dar-me um abraço. Assim que recebi o abraço escutei ela dizer: “Parabéns...” foi como se toda energia que eu tinha mandado a ela volta-se para meu corpo nesses poucos segundos que fiquei abraçado com ela.
Ela... A única pessoa que conseguiu tirar minha concentração em cena, que me fez sentir-me nervoso, que me fez respirar ofegante, ficar uma hora e quarenta e cinco minutos me questionando sobre o que estava acontecendo comigo. A única... É melhor eu parar com essa história por aqui, se não vou começar outra.

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