Um brinde e um adeus.

             Nós nos isolávamos. Facilmente éramos vistos sentados num canto qualquer procurando estar sozinhos com nossos drink’s, pensando. Eu não conseguia imaginar no que ela poderia estar pensando. Na primeira vez que fui à procura dela na festa a encontrei do lado de fora, sentei ao seu lado e perguntei

- Está tudo bem?
- Quase.
            - O que houve?
- Nada, só estou em dúvida.
- Em dúvida com o que? 
           
 Naquele momento ela baixou a cabeça enquanto eu a olhava. E de repente todos decidiram sair para conversar onde estávamos. Ela se levantou e foi para dentro da casa, pedi licença e fui atrás dela. Outra vez a encontrei sentada. Só que desta vez ao fundo da casa atrás do salão de dança. Sentei no degrau ao lado dela, abri outra cerveja e disse:
- Você não respondeu a minha pergunta.
- Qual pergunta?    
- Perguntei a pouco sobre o que estava em dúvida.
Depois de um pequeno momento em silencio, ela disse:
- Acho que não vou responder.

Ficamos sentando ali uns 20 minutos. Para quebrar o silencio, comentei de forma descontraída que o efeito da luz que saia do salão era interresante. Dava a impressão de que as coisas estavam lentas. Então ela pegou minha mão, colocou sobre a dela.
- Eu achei que a minha mão era grande. -  E em seguida riu e apertou minha mão.  - Você é um grande amigo.
 - Obrigado.
Ela se levantou e saiu. Não disse aonde iria dessa vez. E diferente da ocasião anterior, não fui atrás dela. Fiquei sentado no degrau com as palavras dela ressoando em minha mente.

Dei o último gole em minha cerveja e fui até a geladeira pegar outra. Por coincidência ela estava lá também, mas já estava saindo. Peguei a minha cerveja e fui atrás dela. Isso acabou virando rotina durante a festa. Ela estava sentada novamente do lado de fora tomando copo de Martini. Eu estava fumando.
- Você fuma?
- Sim, fumo.
- Perdeu um ponto comigo. - Disse ela. Parei por um segundo, ri.
- Perder faz parte.
- Estou com frio.
- Tenho uma blusa sobrando, posso pegar se quiser.
- Onde está?
- Na cozinha.

Ela se levantou e entrou, pensei que ela fosse para a cozinha pegar a blusa, mas foi direto para o fundo da casa. Pelo mesmo motivo da última vez. As pessoas pareciam estar nos perseguindo. Entrei na cozinha, coloquei uma blusa e peguei a que eu tinha sobrando para entregar a ela.       

- Obrigada.
- De nada.

Ficamos em pé nos olhando e de repente nos abraçamos. Não lembro exatamente o porquê, mas não importa. Ainda abraçados, num sussurro ela me disse:
- Você é demais.

Na hora fiquei sem resposta. Confesso que não sei reagir a elogios. Na hora queria dizer mais coisas, mas só consegui agradecê-la com um mero “obrigado”. Ela me abraçava forte, como se não quisesse soltar. Ainda abraçados, ela disse:
- Eu não quero fazer você ficar triste.        
- Você não me faz triste. Só de estar por perto já me arranca um sorriso do rosto.
Ficamos em silencio por um tempo considerável. Na hora pensei que aquele abraço era o que faltava. Então ela quebrou o silencio novamente.

- Eu não deveria estar tão perto de você.
- Por quê?
- É como se eu estivesse dando doce a uma criança e depois tirando.
- Não me importa.

E mais uma vez o silencio voltou a reinar. Seu cheiro era tão agradável. Eu poderia ficar a noite toda abraçado com ela. A cada minuto juntos, seu abraço ficava mais intenso. Por um momento tive a sensação de que ela estava chorando. Mas foi apenas impressão minha. E até o fim da festa foi assim, ela saia e eu ia atrás dela. Trocávamos algumas palavras e nos abraçávamos. Quando a festa acabou e fomos nos despedir, ela me devolveu a blusa e sorriu de leve.

- A gente se fala.

Virou-se e se foi. Seu cheiro estava na blusa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário