Reclamação ao SAC

A vida adulta é sem duvida
Uma grande mentira! 
Quando pequenos,
Nos prometem companhia,
Dinheiro e a utópica felicidade.

Mas não nos dizem que para isso,
Temos de enfrentar uns aos outro
Como bichos, cegos e gananciosos. 

No fim, estamos só! E tristes. 

Quem eles pensam que são 
Para manchar assim o nome da 
Nossa querida felicidade? 

Cuidado! O tempo passa e é assustador

21h36min.

Preciso dizer que sinto!
Sinto falta de um chão deste como significa a palavra:

"Aquilo que te sustenta."

Posso dizer que não estou diretamente ligado ao meu chão. Falta em mim sentir intensamente essa conexão.

21h41min

Mesmo que se passem horas, não sei se o que faço é certo. Se o que escolho ou escolhi a minutos ou dias atrás me fará enxergar algo que esteja na minha frente e não me permito ver.

21h44min

Entrei nesse ciclo pelos meus próprios entendimentos e interesses. Não tenho base para explicar. Está aqui, dentro da minha cabeça, tudo o que me fez um dia, faz e o que poderá fazer sentir qualquer coisa.

Contudo,  agora às 21h48min não sei se o que digo é certo, todavia, precisava dizer para poder tomar partido sobre o que sou e o que farei daqui pelos minutos a frente.

22h03min.

Confortavelmente desconfortável

      A epifania pode no primeiro momento ser a luz que buscávamos, no entanto no próximo instante um problema matemático indecifrável. A partir dessa primeira linha de pensamento, trilhas formadas em tempos difíceis são enigmas criptogrfados por nossos passos desolados. 
       O capim que segue crescendo nessas trilhas quer resistir a todo custo aos pés que pisoteiam seu pedido de clemência para descrever tamanha a dor de desejar chegar ao céu cru de redenção. Contudo, mesmo após a hemorragia secar suas veias depois de tudo que passou, voltará ao começo sem resposta. 
      
      E o caminho serrano tornará a secar suas memórias, e assim você se conformará.

Insólito

        De certa forma, quando a existência materializa-se, é como se o horizonte dissesse que algo está prestes a acontecer. Nesse mesmo instante uma imagem se faz presente, mas aos meus olhos é quase abstrata. Consegue passar uma certa sinceridade. Parece uma porta de madeira em mogno, bem velha com uma fechadura bonita e brilhante. Eu consigo abri-la, mas o que existe por de trás da porta parece triste. É difícil entrar. É como se eu precisasse de permissão, mesmo ela estando aberta. Eu consigo avistar um frasco! É vermelho e chamativo, e brilha. A sala escura parece só ter mesmo esse frasco no centro, mas de tão escuro que é o lugar não sei dizer se existe um centro. Consegue entender? Quanto mais eu adentro as vísceras do lugar, mais fundo esse frasco parece tornar-se imenso e ele não pode ser maior que a palma da minha mão. Me permita, por misericórdia, entrar! Preciso saber o que há nesse frasco. Fica cada vez mais complicado compreender. Estou eu invadindo o meu sub-consciente? É torturante! Por que eu abri essa maldita porta, afinal? E por que aqui só há esse maldito frasco? Não consigo recuar ou avançar.

        Será essa a minha hora ou será isso uma epifania? O mais interessante nisso tudo é que não há absolutamente sentido nenhum no que digo agora e o mais engraçado: Ninguém vai me responder nada. Encontro-me sozinho com essa maldita porta e esse maldito frasco, e nem tenho conhecimento de quanto tempo terei que passar nesse lugar. Se alguém passar por aqui e encontrar esse recado, peço por tudo que há de mais sagrado! Não olhe por de trás da porta, é perturbador.

Pontuando

Um pássaro
        azul
Corre o rio áspero
Vermelho

Bem   longe
               Sangue
Dor e fé

Inverção

Imersão

Cabe a nós decidir,
Pense bem, junto a mim,
Escute: Há! Tem de haver,
Por quê não?
Vejamos, por onde começar?

É certo apenas perguntar,
Ou é justo também não responder?
Abre a janela, já! Tem que haver,
Não é possível que não.

Não me sufoque, quero ar.

Medo é o corpo querendo proteger-se
Do que há! Então, veja através dela,
Da própria janela. Seja ela de madeira,
O peito, coração, amor ou a paixão, mas olhe.

Tem que haver, me diga algo.
Por favor, não esconda. Há?

Solstício

Busco
No que ofusca
Através do que
Hora é, talvez, outrora
Não. 

Percebi fraquejar 
Notei por dentre 
Olhos, óleo sujo. 
Soou, soei. 

Resisti tanto!
E veja bem, já nem sei.

Garoa suja

Cai gelada,
Chuva suada
Triste, cinza
Ansiosa.

Cai sobre nosso
Chão seco,

Triste
Nosso santo.


Seco há de ser
Nosso canto, seja
Canto de santo,
Seja canto de guerra.

Suada chuva caia
Triste, em nosso
Canto santo, desiste.
Há de ser seco
Nosso pranto.

Cai sobre nosso
Cinza,
Mesmo triste,
Há de ser
Esse, nosso santo.



Introspecção

Há tristeza particular
E medo, daí surge 

A análise pura
Do que outrora 
Havia no peito
Doído, marcado com
Ferro quente.

É olhar no espelho
Do inconsciente,
Buscando uma solução 
Para a relutante dor
Ir-se. 

Matando a saudade

        Boa noite, Clarice. Há quanto tempo desde a ultima vez que lhe escrevo? Tenho sentido calafrios. Precisando de algo para me apoiar, sabe? Se sabe, pelo amor de Deus, me diga! Ah... Me desculpe. Onde estão os meus modos, não é? Mal comecei a escrever e já estou vomitando minhas angústias em você... Perdão. Como você está? Soube que tem companhia agora, e que esta feliz. Isso me anima muito sabia? Espero que seja verdade. Afinal alguém está perto de você, e com certeza cuidando de você. 

        Clarice... Eu preciso pedir socorro. Estou barbado de tão confuso... Acho que se eu pegar em uma gilete acabarei me cortando. Eu queria você perto agora para me dizer o que fazer. Sabe... São 01:12 da manhã e hoje cedo terei compromisso, mas não consigo simplesmente pregar os olhos. Estou com a cabeça cheia demais. Eu precisava de um daqueles seus abraços. 

Por pensar

Já passei, como ser pensante
Por situações que o peito grita e a lógica
Perde-se em vão.

Onde orgulho é mais alto que gratidão,
Que a vergonha mais alta que a verdade,

Mas nunca por um acaso de medo da paixão.
Nego-me! Creio que não seja possível, contudo
Os fatos apontam o oposto. Dói dor doida,
Mergulha-te já em escuridão!

Sorri sorriso triste, triste de paixão.

Quando só, morto.

        Um homem em plena juventude tem dificuldade de sentir-se só, uma vez que a paixão não lhe parece certa; tão pouco palpável. Um homem pode facilmente dizer-se forte, mas em alguns instantes cair aos prantos, sozinho. Pode ser que a força e a brutalidade sejam de sua natureza, mas nem a guerra mais temível vence a fragilidade deste que encontra-se no abandono total de suas convicções. Um homem precisa de um apoio, e este está na paixão. 

        O que seria dos grandes homens se eles não tivessem sentido a obrigação de retornarem aos seus amores com vida? Os que não pensaram dessa forma, não foram tão sábios e certamente não sobreviveram. 

É azul

Se eu pudesse, me apaixonava por você com a mesma intensidade que eu sinto saudade. Mas meu coração é tímido, e quer amar de vagar, e me fazer sofrer. Você é doce, moça. E eu realmente não a entendo... Mas desejaria que as coisas fossem diferentes. Eu não posso ir contra as vontades do peito, e insistir - talvez eu apenas me machuque - então prefiro que seja assim: uma paixão silenciosa. Assim tenho certeza que ninguém se incomoda. Mas digam-me... Posso lhe oferecer esta rosa?

Aflições

Tem dias que a gente acorda melancólico,
Há outros que
Mortos.
Em algumas horas,
Parecemos
Não ter mais para quê.

Às vezes nos sentimos
Tortos...
Ou até "chapados" demais.
Mas têm horas que tudo faz falta
E
O peito, Offlictio.onis em martírio.

Vestida de cetim

A experiência de quase morte é sem dúvida muito interessante, não deixando de ser assustadora, logicamente. Não sei é possível imaginar a sensação... O coração acelera, você não pisca, pede desesperadamente por socorro e não presta atenção em absolutamente nada do que está fazendo. É tão horrível que você, quando consegue escapar, não consegue responder nada com muitas palavras. Fica no "sim", ou no "não..." Não sabe pra onde olhar, nem o que fazer. Você treme muito e pensa nas pessoas que nunca mais veria se tivesse morrido. Daí cai a ficha... Você está vivo e é bom aproveitar, seu desgraçado.

Uma pequena observação

          Em algum momento já parou para aproveitar o melhor do silêncio? Coisa de míseros dois minutos? Sempre me parece mais fácil entender o a reciprocidade da natureza ao redor quando se está em silêncio. As coisas parecem mais harmoniosas, as cores tem mais vida e você entra em estado de entendimento com você mesmo. Tenho certeza que nos tempos de hoje, com a tecnologia em alta dominando a mente das pessoas, poucas delas param para ouvir a si mesmo por um minuto se quer. Já tentou? Faz um bem danado para alma! 

Cartas de nanquim

         Quantos motivos levam uma pessoa a escrever uma carta? Lembro-me do dia em que escrevi uma carta de amor! Talvez um dos dias mais difíceis da minha vida. Como foi difícil escolher as palavras. Me recordo de ter suado frio, ficado nervoso e amaçado talvez uma tonelada de papel. Não é fácil falar de amor, ou expor qualquer coisa que de alguma forma nos torna vulnerável. Coisas como: "o que será que ela dirá?"ou até "será que estou sendo patético demais?"  Sempre nós passam pela cabeça.

Sim... É sempre patético falar de amor. Somos sempre idiotas, bobões que nunca sabem o que fazer na hora de dizer o que tem de ser dito. Viramos poetas que mal sabem escrever. Queremos falar de amor como Fernando Pessoa, Mario Quintana e muitos outros que tiravam de letra quando o assunto era falar desse sentimento tão bonito.

O fato é que não importa o motivo pelo qual se escreve uma carta, desde que ela seja enviada. A amada precisa recebê-la, se for um caso de amor verdadeiro. Mas uma coisa é certa: Eu nunca saberei se assino "com carinho" ou se "com amor"... É realmente difícil escrever uma carta. 

Apenas reflexões

Se tudo realmente sentido fizesse, nada seria questionável.                                                                   Se o vento fosse constante,  não seria também brisa ou tufão.                                                                             A verdade é que tudo pode mudar, mas o fim não.                                                                                 A morte faz parte do fim.

Sendo

Ser brasileiro é viver em uma tremenda inconstância emotiva.
Ser humano, também.
O que tem de haver no Brasil e no "ser"
Para que algo mude?

Ser é complicado, e também é conjugável.
Ser exprime realidade, e a confunde.
Ser é consistir em basear-se em algo,
Não ser é contradizer a si.

Ser é expressar-se em palavras,
E ser brasileiro é não conseguir
Expressá-las.

Ser brasileiro é ter um mundo
Inteiro correndo pelas veias,
E também não conseguir ser
Compreendido.

Ser brasileiro é também
não compreender-se como força,
E esquecer o quão forte
Pode-se ser.



Estopim

É quase assim... Em um instante se vê parado, sem nada a fazer. No outro se vê lendo algo que instiga. Ai você para pensar: "Por que?". Não me arrisco a negar o sentimento que sinto. Vai que encontro no caminho do trabalho um muro maior que a muralha da China. E ela seria aquele muro construído pelas minhas mãos, com tijolos carregados de sentimentos e histórias. Então não saberei se apenas aceno ou se digo “oi” ou sei lá, se pulo por cima dele e continuo andando. Não estudo violão ou bebo com os amigos da mesma forma que antes. Não parecia tão difícil, não é tão difícil. Mas quem eu quero enganar? É um corpo, são dois corpos, são dois universos. Somam-se as incógnitas, nomeia-se o nada. O rifle está apontado, mas não se cria coragem para apertar o gatilho. Põem-se a culpa em tudo, menos em você mesmo. Na raiz quadrada da questão... E Deus! Eu nem gosto de matemática. Já é a quinta madrugada que abro os olhos lembrando de algo que aconteceu entre nós e já não deve ser a primeira vez que digo isso ou que o mesmo acontece. Vamos, quero desentupir cada veia, cada artéria. Pouco a pouco. Até o sangue fluir. Vou riscar uma composição em forma de partitura no chão para que poucos entendam. Quero que os dedicados a música decifrem pouco a pouca cada compasso escrito e façam cada um com sua interpretação pessoal, ressoar cada nota da harmonia. Quem sabe assim, o som invada o universo e traga a mim alguma solução. São muitas escolhas para pouca vontade de escolher. Corre, corre, corre, corre, corre, corre... Corrói. Faz-te presente, dor insuportável. Julgue como quiser. Amasse e jogue isso fora. Faça disso o que bem querer, mas, por favor, não deixe de doer.

Pequeno baú

       Eu guardo tudo. Guardei cada instante... Do início, ao fim. Do momento em que decidi sair de casa, ao momento que retornei. Do filme se iniciando, até o momento que se acabou. Do primeiro contato até o primeiro beijo. Da primeira mensagem, até a última ligação. E do primeiro presente, até o embrulho dourado que ganhei no aniversário passado... Até isso guardei. Engodei-me totalmente, infantilizadamente. Sonhei. Não culpo nada nem a ninguém. Nem mesmo as minhas escolhas. Mas guardo tudo. E agora, jogo fora. 

Vago conto sobre paixão

         Até me apaixono as vezes, busco sempre uma solução. São aromas aqueles sintomas quase ridicularizados por meu sentir, as vezes. São sonhos talvez tristonhos, são desejos talvez perdidos, as vezes. Sabe quando pulsa? Está sorrindo pulsando distante, mas está. Está em sépia aquela lembrança, está no peito aquele momento espinescido. Doeu de forma boa como dói abraço apertado demais, faz bem. Eu busquei sentir, e estou sentindo. Eu busquei amar e não fui amado, eu busquei entender não compreender. Ainda busco. Nada específico por medo de acabar achando, atirando no escuro, contudo amando.

Umas palavras sobre sentimento

         São sete horas da manhã, estou sozinho e estar sozinho não implica no momento em querer estar solitário por tristeza, mas tenho sono. Saltei da cama logo cedo por um desejo que tenho que no momento está em processo de entendimento. Nunca compreendi meus desejos nem os meus sonhos. Sonhos e desejos me soam tão lúdicos e distantes... Mas é incrível como sempre queremos algo ou ficamos sonhando. A vontade de ter algo não move meus atos. Ao pensar mais reflexivamente sobre isso penso em alguns momentos que o que move meu corpo são sentimentos. 

Um desejo interior

Se ao menos todos ouvissem um pouco mais o coração do que a austeridade colocada sobre nós desde a criação, tudo seria diferente.

Sorrir ao despertar

Quando o sol nasce e você desperta ao meu chamado, sua primeira reação é sorrir e se espreguiçar. Dizem que a sensação mais próxima do amor é a do espreguiçar. Então se estica meu bem, e sorri que eu me espreguiço contigo também. 

Êxtase

Estava frio e era um pouco tarde. Uma moça jovem chorava e sentia medo. Já não sabia se amava ou odiava a si mesma, mas queria uma resposta. O telefone tocou, e é claro, ela atendeu. Porém não disse nada. Alguém parecia tentar querer que ela responde-se, mas não obteve nenhum resultado. Com a mesma expressão incrédula e sem vida ela desligou o telefone e acendeu o abajur. Pegou seu diário e começou a desenhar e escrever coisas que na verdade não faziam sentido algum e quem sabe, nem deveriam fazer. Algum tempo depois, um carro pareceu parar em frente a sua casa. Logo depois a campainha tocou várias e várias vezes e ela continuou desenhando, só que desta vez com mais força. Uma voz masculina chamava pelo seu nome incessantemente, queria que ela atendesse. Mas a garota ignorava qualquer chamado, qualquer suplicá de atenção. De repente, um momento de silencio. Um barulho ensurdecedor de porta sendo levada ao chão, e a garota, inerte. Só que desta vez, lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto enquanto ela virava as páginas do seu diário e rabiscava os mesmos desenhos sem sentido e palavras desconexas.
Alguém chamava por ela, por toda a casa. Seu cachorro latia, estava assustado. Hora ou outra ele subiria até o quarto, ela sabia disso. Mas não se movia, não tentava ao menos fugir ou se esconder. Ficava ali, em sua cama. O tal homem tentou abrir a porta, estava trancada, como todas que ele tentou abrir. Começou a chamar pelo nome da garota e nada. Tão inútil como qualquer outra tentativa. Depois de muito custo, ele conseguiu entrar. Mais uma vez tendo que levar a porta ao chão. A garota continuou a desenhar, olhou para a porta e viu a pessoa que tanto suplicou por sua atenção. Ele entrou, foi em sua direção, sentou ao seu lado. E eles ficaram ali, a noite toda. Não houve diálogo algum, até porque não foi preciso dizer nada, tão pouco fazer algo. Apenas estar ali, juntos.

Pequeno conflito interior

As vezes me pego sentido sua falta.
Depois lembro que disse que te esqueceria.
Então percebo que tem coisa errada.

Sem definição de começo

        Como um presente a conquistei e num suspiro a perdi. Foi como em um sonho: Não sei ao certo como começou, mas sei bem como terminou.

Manhã de janeiro

            Olá, Clarice. Está é a segunda carta ao qual lhe escrevo e logo pela manhã. Estou tentando criar hábitos mais saudáveis! Comer mais frutas e verduras. Sair para correr e me exercitar.  É... Eu sei que essa não é a melhor forma de se começar uma conversa. Mas achei que devia saber que estou mudando. Então me apeguei a esse detalhe. Mas isso não importa tanto. O que importa, é que estou mudando de cara, de endereço, a forma de pensar e de agir. Cai de um penhasco esses tempos, acredita? Imagino que você deva estar dando aquele seu sínico sorriso de canto de boca agora e pensando: “Como ele consegue me estrepar tanto?” E é claro que sabe de que tipo de penhasco eu cai. Mas o que posso fazer?  Sabe que gosto de emoções fortes. Mas dessa vez foi engraçado, sabe Clarice? Mas eu gostei. E apesar da fase triste da queda, da sensação de que as noites de sono estavam cada vez menores e as olheiras cada vez maiores, apesar de tudo! Fiquei feliz com o resultado. Foi por pensar assim que resolvi te escrever novamente e dizer que mudei tanto. Lembrei que no colégio, num dia em que eu estava bem triste por que a professora havia me dado um belo puxam de orelha, sabe? Você me olhou e disse: “- Não fique triste. Você não brilha quando está triste! Vamos, levante. Caia um mundo sobre nós, mas vamos sorrir. Esse foi o combinado, lembra?” Foi ai que sorrimos e saímos andando com a mochila nas costas de braços dados. Nunca me esqueci daquele dia. Foi por lembrar-me desse seu conselho que não me deixei abater. Você é engraçada, sabia? Mesmo distante sempre arruma um jeitinho de estar presente. (Até mesmo em lembranças). De todas as vezes que fui até você para conversar, você me olhava e apenas me escutava. E eu, muito entretido com o que estava dizendo quase não reparava que estava falando feito uma matraca. E assim as coisas seguiam... Sinto sua falta, Clarice. Espero que esteja tudo bem.

 PS: Tire esse maldito sorriso sínico do rosto. 

Sinceridade tem idade

Um dia escutei uma doce criança dizer com voz doce e inocência de um anjo a um senhor:
“- Você tem um cheiro bom.”
“- Cheiro de que?”
Indagou o senhor assustado, porém contente com o comentário. Sem nem ao menos hesitar, o menino de apenas seis anos disse:
“- Tem cheiro de vovô.”

Em reflexão com o eu lírico

            O que acha de deitarmos um pouquinho no telhado? Ultimamente o céu anda generoso. A lua está cheia e está acompanhada de muitas estrelas. Esse calor está quase infernal, mas lá em cima deve estar fresquinho. Tenho saudades de falar com Clarice as vezes... Ela desapareceu. Esses dias eu tenho falado apenas com meu interior, escutado os acordes do violão soarem secos e sem vida. Será que isso faz parte do desapego? 

Extraviada um mês antes da despedida

            Eu disse a você que da forma que começou, terminaria. Eu disse querida S.S. que mesmo no fim, eu sairia sorrindo. Não por deboche, longe disso. Sabe? Talvez eu seja a única pessoa que você conheceu que faz comédia do próprio drama! Não se preocupe comigo, ou com o que eu estou pensando agora. Sei que você pode ser qualquer coisa, mas não é injusta. Sendo assim, não me peça perdão por não ter dado certo, afinal, tudo tem seu fim. Assim como o fim da vida é a morte, o fim da paixão é a desilusão - mesmo que ela talvez nem tenha surgido em algum momento – Claro, claro. Não serei hipócrita a ponto de dizer que não me entristeci. Mas entenda, a tristeza é passageira. Se entristecer é diferente de se magoar. De ti não carrego mágoa alguma. Acredite! Muito pelo contrário, carrego doces lembranças dos poucos momentos que passamos juntos. Espero que se apaixone por alguém como me apaixonei por você. Você merece sentir isso... É tão bom. Sei que temos muita estrada juntos pela frente, mesmo que nos percamos de vista em algum momento de nossas vidas.

            Bom, agora vou parando por aqui. Minhas pálpebras estão pesando e meu punho dói. Acho que desacostumei a escrever a mão. Vou ter trabalho para revisar esta carta! Minha letra está horrível. Mas sempre vale a pena, não é? Ah, antes que eu me esqueça queria dizer que você foi a primeira pessoa a qual eu me apaixonei de verdade. E que se acaso eu voltar a me apaixonar por outra garota, saiba que meu orgulho não permitira outra brecha como essa. Por algum motivo ele só me permitiu dizer isso a você. E mais ninguém.
Com carinho, M.
05 de abril de 1987 

Peito enevoado

        - Tem chovido muito ultimamente, não é Clarice? Estou um pouco preocupado e ansioso. Clarice, você consegue ouvir o que o som que faz quando bate o vento? Eu ouço musica! E na musica sinto o pulso. Parece que esse pulso acompanha meu estado de espírito. O tempo continua nublado... Parece até que ele sabe como estou me sentindo por dentro. O tempo nunca erra não é Clarice?

Origem

        Numa viajem insólita, entrei em um estado de nostalgia voltando no tempo em que ainda minha mãe eu obedecia. Um “não” era como um muro erguido no meu caminho. Mas ao escutar soar as notas do piano minha alma era elevada a uma altura equivalente a de um prédio. Minha mãe me educou bem.

Os sete mares

        Sentidos perdidos no mundo. Oriundo da obsessão e ganância do bicho homem. Talvez nem a arte consiga nos salvar... Nem ao menos em nosso ar podemos ter fé.  Navegue os sete mares e verá algo parecido com a força do amor ou rancor.

A arte de sentir


            - Sabe o que eu vejo em nós dois? Que eu sou apenas um garoto apaixonado por uma garota que tem medo de se apaixonar da mesma forma. Mas o mais engraçado é que eu não me importo desde que você esteja comigo.

No nosso tempo

        Uma flor no outono, oxigênio no espaço, um erro de compasso. O som que ressoa, mas poucos escutam. Uma casinha de madeira e um cantinho com você ao lado da lareira é pedir de mais? Chocolate quente e um cobertor para nos deitarmos sobre um tapete velho e nos amar. Sair e brincar, conversar de forma sincera. Ofereço-lhe um mundo para viver comigo. Mas no seu tempo, no tempo que seu coração desejar. Se desejar.

Um desafio


        Eu estava no campo quando a vi surgir em meio todo aquele caos. Um calor insuportável parecia estar me queimando de dentro para fora. A dor gritava dentro do meu peito, a dor grita em meu peito, a dor mora em meu peito. Estava parada envolvida por fumaça negra das arvores que pegavam fogo. A sua presença causava isso. Ouviam-se tiros e gritos, choros e pedidos de socorro. E ela estava ali, parada feito estátua. Eu andava na sua direção, mas ela afastava-se. A cada passo o calor era maior, eu andava em direção a morte, eu ando em direção a morte, em direção ao ramo de lírios. Seu olhar acompanhava-me sem ao menos piscar. Arranco um lírio e a desafio-te a me amar.